Indústria pressiona governo
por mais acordos comerciais com outros países Com mercado interno em
desaquecimento e vendo sua participação nas exportações em queda, setor pedirá
nova política de inserção do País no cenário global, ainda que signifique
abertura maior do mercado.
SÃO PAULO - Após passar anos
buscando proteção do governo, a indústria brasileira se deu conta de que o
mercado interno não é suficiente para garantir seu futuro. No momento em que vê
sua participação nas exportações despencar e em que perde mercado até na
América do Sul, o setor começa a pressionar o governo na direção oposta: quer
mais acordos comerciais bilaterais.
Nos próximo dias, o
Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) enviará à
presidente Dilma Rousseff uma carta com extensa análise sobre a ausência do
Brasil nos acordos preferenciais de comércio e recomendações para uma nova e
urgente política de inserção comercial, ainda que isso signifique uma abertura
maior do mercado nacional.
"O Brasil precisa
saber, em todas as esferas - empresários, governo e sociedade -, que, se não
fizer nada, vai ficar excluído do cenário mundial. Vai regredir mais e mais sua
produção para bens primários", diz Pedro Passos, presidente do Iedi e
sócio-fundador da Natura.
Outras entidades também
pedem mudanças na política comercial brasileira, como a Confederação Nacional
da Indústria (CNI), a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e
a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).
A Fiesp se prepara para
liderar um movimento pela reforma do Mercosul. "Precisamos nos livrar
dessa camisa de força, pois não vamos concluir nenhum acordo tendo Argentina e
Venezuela como parceiros", diz Roberto Giannetti da Fonseca, do Departamento
de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp. A ideia é ter um
acordo guarda-chuva para o bloco e acertos individuais de cada país, com
tarifas específicas e prazos de adesão.
O Iedi afirma que, ao
privilegiar as negociações da Rodada Doha, da Organização Mundial do Comércio
(OMC), em discussão desde 2001, o Brasil não correu atrás de acordos
preferenciais de comércio, se afastando de outras economias relevantes que
investiram nessa estratégia. Em dezembro, o futuro de Doha será tema da reunião
da OMC, agora sob direção do brasileiro Roberto Azevedo.
Entre as questões
regulatórias que devem ser incluídas em futuros acordos, o Iedi sugere regras
de origem preferenciais, mecanismos de reconhecimento mútuo de medidas não
tarifárias, salvaguardas transitórias e um modelo de proteção aos investimentos
que leve em conta as sensibilidades de países em desenvolvimento.
A coordenadora do Centro do
Comércio Global e do Investimento da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Vera
Thorstensen, diz que, até o ano passado as indústrias resistiam em apoiar
acordos. Alegavam perda de competitividade em razão do custo Brasil e da
desvalorização cambial. Mas viram, por exemplo, que a explosão de consumo
ocorrida no País foi atendida em boa parte por produtos chineses.
"A indústria nacional
continua sem competição, mas percebeu que isso precisa ser usado como pressão
para buscar soluções do governo", diz.
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